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HISTÓRICO
DA UTILIZAÇÃO DAS FICHAS
A
instituição da ficha nos transportes coletivos brasileiros não é uma
idéia ou invenção brasileira. Sua utilização foi decorrente de
fatores inerentes aos vários tipos de transporte, as suas necessidades
e as circunstâncias específicas de cada um.
Vale salientar que
independente das situações específicas também existiram fatores,
culturais, "importados" e tecnológicos, que causaram suas adoções.
Como exemplos destes fatores, temos:
- evasão de renda;
- diferentes distâncias
gerando automaticamente diferentes preços nas passagens;
- empresários
estrangeiros operando concessões nacionais e trazendo seus "hábitos";
- catracas sem mecanismos
para contagem da quantidade de voltas dadas etc.
Premissas
Significado:
As
fichas são reconhecidas mundialmente como objetos de troca (entenda-se aqui a
palavra troca, como a substituição por algo de valor, quer seja financeiro
ou não). Isto faz com que sejam comparadas as moedas, e por este motivo
passam a ter e tem, valor fiduciário legal.
Origem:
Sua
origem foi diversifica, servindo para vários fins (meios de transporte, comércio
em geral (bares, lojas etc.), bancos etc.), porem tendo como objetivo a troca,
sendo que em algumas situações sem tempo de validade e em outras restrita ao
momento. No nosso caso do transporte coletivo, em épocas passadas restritas
ao momento e atualmente com prazo de expiração maior e/ou ilimitado, como
veremos adiante.
Materiais Utilizados
Por
sua semelhança e "finalidade" compatíveis com as moedas,
inicialmente, foram produzidas com materiais nobres, similares às próprias
moedas, tais quais bronze, metal amarelo, cobre, níquel, alumínio etc. Com o
passar do tempo, foram gradativamente mudando para materiais mais modernos e
também mais baratos, como baquelite, galalite, plástico, plástico flexível,
ligas etc. As versões atuais, da década de 90, utilizam uma tecnologia que
associa o plástico a códigos óticos, onde são armazenadas informações
que serão lidas e validadas por equipamentos de informática.
Em
função dos tipos de materiais utilizado, fica claro que fichas são peças
fabricadas com materiais resistentes, que não podem e nem devem ser
confundidas com bilhetes e/ou passagens de papel ou materiais similares.
Algumas Fichas da Coleção
Viação
Excelsior: Empresa da Light que também explorava os bonde do Rio. Foi a
primeira empresa de ônibus no Brasil, a utilizar-se de fichas. Esta específica
circulou de 32 até 40 aproximadamente em ônibus de dois andares
carinhosamente apelidados de chopp duplo.
Empresa
Interestadoal de Ômnibus de Luxo Ltda. – Limousine Federal: Também do Rio
e pela grafia, dá para notar que é bem antiga. Circulou entre as décadas de
30 e 40.
Empresa
São José (Oliveira Paula): Origem desconhecida, provavelmente interior de São
Paulo. Década de 40, pois no reverso a palavra telefone está escrita com
grafia antiga (telephone).

Prefeitura
Municipal de Porto Alegre - D.A.T.C. (Departamento Autônomo de Transportes
Coletivos): Apesar de estampado o nome da prefeitura de POA, soube que estas
foram usadas por uma linha intermunicipal entre POA e Guaíra, na década de
50.
PAN
(Transportes Paranapuãn Ltda.): Também Rio, ligando o centro a Ilha do
Governador, com a seção de validade estampada na ficha (Castelo e Bananal).
Década de 60.

Bandeirantes
Auto Ônibus S.A.: Também Rio, tendo como curiosidade o formato da ficha,
somente usada por duas empresas. Um formato que lembra os biscoitos Maizena.
Também década de 60.
Nomenclatura
Entendemos
por transportes coletivos brasileiros que tenham utilizado ou utilizem fichas,
os seguintes tipos conforme descritos:
1.
Trem: Meio de transporte ferroviário, que utiliza tração elétrica
ou animal;
2.
Metro ou Metropolitano: Meio de transporte ferroviário que utiliza
tração elétrica;
3.
Barco: Meio de transporte marítimo ou fluvial;
4.
Bonde: Meio de transporte terrestre urbano, que utiliza tração elétrica
ou animal;
5.
Lotação: Meio de transporte terrestre urbano, com capacidade máxima
de 30 passageiros e uma única porta de acesso;
6.
Ônibus Elétrico: Meio de transporte terrestre urbano, que utiliza
tração elétrica, com capacidade superior a 30 passageiros e duas ou
mais portas de acesso;
7.
microônibus e/ou Ônibus: Meio de transporte terrestre urbano e/ou
interurbano, com capacidade superior a 30 passageiros e duas ou mais
portas de acesso.
Utilizações
Como
citamos, cada tipo de transporte utilizou (e em alguns ainda utiliza) conforme
suas condições e situações, que passamos a expor:
Para tipos 1, 2 e 3
A
cobrança da passagem era feita em bilheterias e não no interior do veículo.
Por isso eram utilizadas as fichas ou os bilhetes, em função das distâncias
percorridas (para trens e metros) e dos tipos de acomodação ou localização
do passageiro (para trens e barcos).
Ilustração:
Em 1864 a Companhia Nictherói & Inhomerim, uma das operadoras que
exploravam a concessão de barcas entre as cidades do Rio de Janeiro e Niterói,
disponibilizava aos seus usuários aproximadamente 15 preços diferenciados de
passagem, em função da localização do passageiro dentro das barcas. Estas
fichas no formato ovalado, foram cunhadas em bronze e fabricadas em Londres.
Eram verdadeiras medalhas, muito mais bonitas do que muitas moedas circulantes
no mundo, na época.
Para tipo 4
Como
existiam tipos distintos de bondes, totalmente abertos ou com portas
dianteiras e traseiras, existiam também condições diferentes de efetuar a
cobrança da passagem:
-
para os totalmente abertos, um cobrador circulava pelo estribo do bonde e a
proporção que cobrava e recebia o pagamento da passagem, registrava em um
marcador tipo relógio. Este controle era totalmente visual e sem nenhum
recibo para o passageiro; e
-
para aqueles com portas dianteiras e traseiras, o cobrador ao receber o
pagamento da passagem retornava ao passageiro uma ficha ou um bilhete, que
deveria ser depositado, ao sair do veículo, em uma caixa coletora.
Para tipos 5, 6 e 7
Estes
tipos de veículos, apesar de terem diferentes nomenclaturas, possuem uma
linha similar como meios de transporte. Suas diferenças básicas são a
quantidade de passageiros transportados e as portas de acesso.
Para
os colecionadores de fichas de transporte estes 3 meios, no Brasil, forneceram
e fornecem aproximadamente 97% de todo o material colecionável existente,
pois a grande maioria dos fatores para utilização das fichas, para eles se
aplicaram. Vamos analisar cada fator citado e, dentro do possível, ilustrá-los:
Importado:
Alguns
dos veículos comprados no exterior, vinham equipados com caixas coletoras,
que tinham como finalidade o depósito do valor da passagem, em moedas e na
presença do motorista, pelo passageiro ao embarcar ou desembarcar do veículo
(veja item 1 do fator Cultural).
Ilustração:
Em alguns países estas caixas coletoras eram e ainda são utilizadas, não só
para depósito de moedas como também para fichas, que correspondem ao valor
da passagem e são vendidas antecipadamente por um preço mais barato conforme
a quantidade adquirida.
Cultural:
1)
Associado ao item 1 do fator Importado - O aumento constante nos preços
das passagens criou um problema para o motorista: conferir o valor depositado
em moedas pelo passageiro na caixa coletora, devido a quantidade das mesmas.
Culturalmente falando, a grande maioria das moedas depositadas não era compatível
com o valor que deveria ser pago, o que na melhor hipótese significava uma
evasão de renda.
2)
Em muitas capitais brasileiras, à proporção que elas cresceram,
foram adotadas as "seções" pois se a operadora mantivesse um único
preço para todo o percurso, somente teria como usuários aqueles passageiros
que morassem nas cercanias do fim da linha e estaria perdendo todos aqueles
outros intermediários que não iriam querer pagar uma passagem inteira por um
percurso menor.
Ilustração: Para
solucionar os problemas dos itens 1 e 2, foram adotadas as fichas que são
reusáveis, quando comparadas a bilhetes ou passagens. A primeira operadora no
Brasil a instituir o sistema foi a Viação Excelsior, do Rio de Janeiro, que
na década de 30 substituiu as moedas por grandes fichas de alumínio,
confeccionadas artesanalmente em suas garagens. Nesta ocasião os trocadores
receberam a denominação de cobradores, pois inicialmente sua atividade no
interior do ônibus era restrita à troca de dinheiro graúdo (cédulas) por
dinheiro miúdo (moedas) e após o advento das fichas, começaram entregando
as fichas aos passageiros e posteriormente além da entrega das fichas também
recebiam o pagamento da passagem.
Tecnológico:
As
roletas ou catracas existentes e/ou fabricadas no Brasil, não possuíam
mecanismos para contagem da quantidade de voltas dadas, ou seja a quantidade
de passageiros que pagaram passagens. Dessa forma eram necessárias as fichas
ou bilhetes para contabilizar a quantidade de passagens vendidas e a receita
diária de cada veículo.
Ilustração:
Inicialmente os trocadores e cobradores trabalhavam em pé, circulando pelo veículo.
Com o passar do tempo, os cobradores foram "premiados" com um banco
localizado perto da porta traseira, acompanhado de uma pequena mesa com gaveta
para guardar o dinheiro e as fichas ou bilhetes. Devido a outro fator
cultural, o "calote", foram colocadas roletas para que os
passageiros passassem um a um e pagassem as passagens.
Atualidade:
Em
função de procedimentos para unificação dos preços das passagens,
independente dos fatores distância entre localidades e principalmente para
reduzir os custos da população mais carente que normalmente mora mais longe,
a utilização das fichas foi radicalmente reduzida e até eliminada na
maioria das cidades brasileiras.
Todavia
a criação dos vales transporte, escolar e idoso, reativou novamente o uso
das fichas em algumas cidades, pois outras adotaram os vales na forma de
papel, ou mais atualmente em forma de cartões inteligentes (smart cards), que
são recarregáveis. Estas fichas modernas, em número infinitamente reduzido
em relação à épocas passadas, são feitas em plástico e contém uma liga
"ótica". Elas são reconhecidas por catracas eletrônicas para
posteriormente serem contabilizadas por equipamentos de informática e
trouxeram mais uma vez a oportunidade dos colecionadores de fichas aumentarem
seus acervos, como também e principalmente manterem vivas suas esperanças de
conseguirem novos exemplares, que de uma forma bem objetiva, direta e cultural
contam e mostram uma história da nossa civilização.
Reportagem
de Eduardo José Amaro Cunha
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