Colecionador por José Rabelo
José Rabelo
Foto capa: Syâ Fonseca
“Eu diria que o domínio da cultura geral é uma característica marcante do colecionador”. Essa é a opinião de Leo Amorim (foto), jornalista e colecionador que há mais de 50 anos coleciona cartões-postais. Amorim, que possui um acervo de mais de 40 mil postais, acredita que os cartões dão uma importante contribuição para a cultura.

Ao contrário do que ocorre nos Estados Unidos e na Europa, ele diz que o colecionador não é valorizado no Brasil. É de Amorim (entrevistado da edição deste fim de semana, 10 e 11 de novembro, de Século Diário. Link para entrevista completa no final desta reportagem), por exemplo, um dos raros exemplares do “Correspondenz Karte”, de 1869 - primeiro cartão a circular no mundo. Para ele, o verdadeiro colecionador não encara a atividade como um meio de ganhar dinheiro.

De acordo com Amorim, nos Estados Unidos e na Europa os colecionadores são tratados com reverências pelas autoridades e pesquisadores, que não vêem o colecionismo como um simples hobby, mas como uma importante contribuição cultural que pode ser capaz de recontar passagens históricas por meio de um postal, selo ou gravura. “Há um cartão endereçado por Adolf Hitler que no final ele deixa a seguinte mensagem: ‘Para você, com carinho, Adolf!’. Para mim foi inesperado. Não imaginava que Hitler tivesse esse lado mais sentimental”.

Amorim afirma que é quase impossível descrever a sensação de um colecionador quando ele encontra uma peça que está procurando há muito tempo. “Você praticamente perde a voz. Não sei como descrever. É como se você estivesse entrando no túmulo de Tutankamon. É uma satisfação muito grande”.

Há quem diga que o colecionismo é tão remoto quanto a humanidade. Alguns pesquisadores asseguram que na pré-história os primatas já juntavam artefatos repetidos nas suas cavernas, e não era por uma questão de sobrevivência. A pesquisadora Renata Lima diz que o imperador romano Júlio César, após dominar a Grécia, passou a colecionar objetos culturais dos rivais. Já os franceses apontam a Idade Média como o início do colecionismo na Europa. Eram famosas nessa época as coleções de armas e relíquias sagradas.

Revistas pornográficas

Segundo Leo Amorim, foram os franceses os primeiros a apresentar, no início do século XX, o nu feminino em cartões-postais. “Os cartões eróticos franceses do início do século passado inspiraram as primeiras revistas pornográficas na França. Foi a primeira vez que as pessoas tiveram contato com a foto de uma mulher nua. Havia fotógrafos consagrados que produziam esses cartões dando ênfase ao nu artístico. E havia também os pornográficos de sexo explícito mesmo, que hoje valem cerca de 50 dólares no mercado”.

Colecionar ou juntar

Colecionadores como Leo Amorim, que já dedicou mais de meio século da sua vida à arte de colecionar, encaram a atividade de maneira muito profissional. Segundo Amorim , são comuns histórias de amigos colecionadores que se deslocam pelo Brasil e pelo mundo atrás de uma peça rara. Ele conta que as histórias chegam a ser algumas vezes curiosas e pitorescas. “Nunca confie em um colecionador. Ele é capaz de fazer qualquer negócio para conseguir um cartão que está perseguindo”, brinca.

Brincadeiras à parte, os números revelam que para muita gente a cartofilia (coleção de cartões-postais) não é um simples passatempo de desocupados. Chegando muitas vezes à obsessão, os colecionadores profissionais não hesitam em pagar 500, 1.000 ou até 2.000 dólares por um postal raro. “Para se ter uma idéia, o cartão com a dedicatória sentimental do Hitler foi comercializado recentemente nos Estados Unidos por 1,5 mil dólares”.

A fascinação pelo colecionismo, porém, não é uma exclusividade das classes sociais mais abastadas. Nas grandes capitais, a partir do lançamento do cartão telefônico, a coleção por esse pequeno retângulo de plástico – a telecartofilia - passou a ser objeto de desejo de muita gente humilde. É comum ainda encontrar, próximo aos locais de grande circulação popular – como terminais de ônibus ou metrô, portas de hospitais públicos ou centros comerciais -, camelôs vendendo cartões telefônicos para colecionadores. Diante da febre popular, a antiga Telerj (Telecomunicações do Rio de Janeiro) chegou, na época, a abrir uma loja para vender cartões a colecionadores. Eles, no entanto, não gostam de ser chamados de “juntadores”. Embora, muitas vezes, os objetos colecionados mudam de tempo em tempo.

Na internet são milhares de sites promovendo a troca e venda de cartões-postais, telefônicos, selos, antiguidades e os mais variados objetos. Para se ter dimensão da importância da internet para o mundo do colecionismo, um estudante português lançou em 2006 um site especializado em postais. Em menos de um ano o ‘postcrossing’ já reúne cerca de 21 mil membros de mais de 137 países e movimenta mais de meio milhão de postais por ano. “Eu faço parte da ‘postcrossing’ que realmente é um fenômeno. Na relação da postcrossing o Brasil é o nono país que mais envia postais. Os maiores colecionadores estão na Bélgica, Alemanha, Estados Unidos, Singapura e Itália”.

Clique aqui e leia a entrevista completa de Leo Amorim.