![]() |
|
COLECIONADOR DE ALMAS VEJA O TEXTO NA INTEGRA NO SITE DO
AUTOR clicando aqui: Home
A Coleção do Velho
Joaquim Uma História do Círculo
Fantasmagórico Abaixo da casa, ficava um subterrâneo tão vasto que
mesmo Joaquim não conhecia cada recanto daquela caverna. Era lá que ele guardava
sua singular coleção e, olhando para ela, deliciava-se e ria de todos os outros
colecionadores do mundo, que acumulavam revistas, selos, jornais ou, como dizia
ele, "gastavam a vida juntando quinquilharias". Joaquim era diferente. Naquela
infinidade de garrafas, dos mais variados tipos, cores e formatos, ele
colecionava almas. Porém, a coleção não começara com ele. Quando pequeno
Joaquim se mostrou uma criança terrivelmente má, o suficiente para que sua
família padecesse de um desgosto crônico, de tal modo que o coração de seu pai
decidiu parar de bater mais cedo e o desafortunado homem foi enterrado bem antes
do que, certamente, esperava. Ao crescer, porém, Joaquim superou a si mesmo, ao
tornar-se um adulto ainda pior. Se for verdade, como nos ensina a magia, que os
semelhantes acabam por se encontrar, então foi isso que o fez conhecer o velho
Nicolau e através deste aquele jovem de coração maligno descobriu sobre a
coleção. Ele lhe contou que ninguém sabia, com certeza, dizer quem a começara ou
quando isto teria acontecido. O fato é que desde há muito tempo sempre houvera
um colecionador de almas no mundo, alguém de espírito perverso, responsável por
manter aquela coleção abominável. No entanto, o tempo de Nicolau neste mundo
estava por se acabar e, como ocorrera antes dele e antes e talvez sempre, o
destino havia cuidado em fazer surgir um substituto. Joaquim seria o herdeiro de
Nicolau e essa tarefa ele aceitou com alegria. Nos meses seguintes, enquanto definhava, Nicolau
cuidou de ensinar-lhe tudo o que pôde e, ao menos, o mínimo necessário para que
pudesse manter a coleção. Havia magia envolvida e Joaquim foi o aluno mais
diligente que já se viu. E quando Nicolau mudou-se para debaixo da terra, ele
prosseguiu o trabalho de seu mestre, muitas vezes se gabando de tê-lo
superado. Dias e anos se passaram. Joaquim continuou sua
rotina. Uma vez por semana, era a noite da captura, da caça, a oportunidade de
ampliar a coleção. Ele descia até o subterrâneo, carregando seu livro de
encantamentos, um certo número de poções e artefatos e no peito o coração mais
sombrio deste mundo. Há todo momento, por toda a parte, sempre havia alguém
morrendo. Utilizando sua magia, Joaquim atacava o espírito daquele que partira.
Alguns eram mais fortes, capazes de escapar, outros não. Às vezes os deuses
sombrios escolhiam abençoar sua caçada e ele capturava cinco, sete ou até mesmo
dez novas almas. Eram raras as ocasiões em que ele não conseguia prender ao
menos uma. De qualquer forma, ele trancava as almas capturadas
em garrafas e guardava no subterrâneo. Dizem que alguns espíritos vão para o Céu
e que outros descem para o Inferno, pois há um impulso natural, uma necessidade
inescapável que possui os mortos e impede-os de permanecer no mundo dos vivos.
Porém, os espíritos capturados por Joaquim não podiam ir a qualquer lugar e
ficavam trancafiados, para sempre, naquelas pequenas prisões de vidro e lá
gritavam, ou apenas lamentavam e gemiam, de uma forma tão dolorosa e terrível
como poucos seriam capazes de imaginar. Exceto pelas caçadas, os momentos mais felizes de
Joaquim era quando passeava pelos subterrâneos admirando sua coleção. Todas
aquelas garrafas, contendo tantas almas. Em êxtase, ele ouvia e se deliciava com
os lamentos dos desafortunados espíritos. Como eram infelizes aqueles gritos e
desesperadas as vozes espectrais! Lá ele permanecia por horas. Nada poderia ser
mais prazeroso para ele. Nenhum paraíso poderia comparar-se a
isso. Todavia, algo o atormentava. Ele conhecia a lenda,
que lhe fora contada por Nicolau, do que poderia acontecer ao colecionador de
almas se viesse a morrer sem encontrar um sucessor. Porém, lhe fora explicado
que isto era apenas um mito, que o próprio destino sempre se encarregava de
fornecer um substituto a tempo. No entanto, Joaquim era desconfiado demais de tudo e
não estava disposto a dar crédito ao destino. Por isso, embrenhou-se no estudo
da Magia para além dos limites que lhe foram ensinados. Ele havia decido
interferir no próprio curso das coisas e, deste modo, garantir que o Universo
não se esquecesse de enviar-lhe um sucessor. Para Joaquim foi uma vida longa e proveitosa, que ele
não trocaria por nada neste mundo. Ele jamais construiu uma família, vivia
completamente só... Mas o que isso importava para ele? Quando uma infinidade de
almas gritava em tormento naquelas garrafas, unicamente para o prazer
dele... E uma vez sua última noite finalmente chegou. Era uma
noite de caçada, mas ele se sentia fraco e cansado e nem mesmo capturar novas
almas parecia animá-lo. Não comeu por todo aquele dia. Já muito tarde sentou-se
na cadeira de balanço e começou a pensar. Por que seu s Então uma forte dor
atingiu-lhe o peito, com se estivesse sendo esmagado. Em agonia, Joaquim tentou
levantar-se, mas tombou com o rosto no chão e lá, incapaz de se erguer, viu o
que lhe restava de vida ser roubado pela morte. Naqueles momentos que se
extinguiam, ele questionou os deuses sombrios, blasfemou contra eles e indagou
onde estava seu sucessor. Depois pediu calma a si mesmo. O sucessor viria. Teria
de vir. Joaquim havia sido tão cuidadoso em seus encantamentos, se esforçado
tanto nos feitiços, ido tão longe na Magia como, possivelmente, ninguém jamais
ousou fazer. O substituto chegaria a qualquer momento. Sim, com certeza. Porém,
sua visão começou a escurecer e ele morreu. Joaquim despertou num ambiente estranho. O solo era
formado de algum tipo de rocha que lhe pareceu dura como diamante. E verde. Era
um mundo vazio e esverdeado. Ele se levantou. A dor no peito havia passado,
sendo, porém, substituída por uma sensação de sufocamento, de prisão. Algo nele
ardia em um desejo voraz de fugir daquele lugar para... Ele não sabia onde. O
colecionador de almas correu pela vastidão esverdeada, até chocar-se contra uma
parede feita da mesma rocha do solo, e que parecia erguer-se até o infinito. Ele
bateu e gritou contra aquela muralha, até que as forças lhe faltaram e ele caiu
de volta ao solo — de joelhos, comprimindo o rosto contra a intransponível
parede — e começou a chorar, enquanto o desejo de escapar dali aliava-se a uma
dor como ele nunca sentiu e ao terror tão absoluto e instintivo por sentir-se
aprisionado. O momento era horrível. Joaquim desejou estar no Inferno, que, por
certo, não poderia ser pior do que isto. Subitamente, algo lhe chamou a atenção e ele se
voltou. Por uma fração de instante, vira Nicolau, que lhe falou em alguma língua
desconhecida, cujo som se assemelhava a vidro sendo despedaçado. O fantasma
desapareceu tão logo Joaquim pronunciou-lhe o nome, mas sua mensagem foi
plenamente entendida. Joaquim morrera sem que seu sucessor chegasse e a
lenda, que ele tanto temeu, agora estava se cumprindo. Este era o interior de
uma das garrafas, na qual seu espírito padeceria pela eternidade. "Como?" -
indagou Joaquim. Não fora ele muito habilidoso em seus encantamentos, não fizera
tudo o possível para garantir que o substituto chegasse a tempo? Então, a
crueldade da mensagem de Nicolau se tornou mais clara: fora Joaquim, quando
abusara da magia — em seu ímpeto e presunção de obrigar forças antigas e
superiores a fazerem o que ele desejava, da forma que ele desejava — que havia
corrompido o próprio fluxo natural do destino e, por esta razão, o sucessor
nunca viera e jamais iria vir. Antes, porém, que Joaquim pudesse compreender a
totalidade de sua falha, havia uma última parte da lenda que precisava ser
cumprida. Ele ouviu um som alto e apocalíptico, como se este pudesse preencher o
mundo, e por toda à parte do subterrâneo, as garrafas, exceto aquela que o
confinara, foram despedaçadas. Uma infinidade de almas fugiu dali numa nuvem
tempestuosa de cores sombrias e relâmpagos. Entre os espíritos libertados, um
grupo procurou o Céu e outros se resignaram a descer ao inferno. De qualquer
modo, foi uma noite de grande júbilo, tanto nas alturas mais celestes quanto nas
profundezas abissais. No mundo dos homens e mulheres, as pessoas comentariam por
anos o inexplicável mar de luzes que se ergueu daquela casa perdida no
interior. Quanto a Joaquim, preso numa garrafa que ele mesmo
havia preparado para resistir por uma eternidade, seus olhos cheios de desolação
invejavam os espíritos agora livres, substituto ainda não havia surgido?enquanto
ele agonizava de dor e desejo de também escapar, e blasfemava contra o vidro,
insensível a seus esforços e lamentos, o qual tantas vezes ainda viria a lhe
provar que era impossível fugir dali. E foi desta forma que a coleção terminou e Joaquim
acabou por ser o último dos colecionadores de almas que se já viu neste
mundo. Fim
|
|
|