
COLECIONISMO DE
“FIM-DE-SÉCULO”
Prof. Agnelo de Souza Fedel * “Essas novas mercadorias são as
mais humanas de todas, pois
vendem a varejo os ectoplasmas de
humanidade, os amores e os medos
romanceados, os fatos variados do
coração e da alma.” Edgar Morin,
1962. Criando e
desenvolvendo “auras” Quando
Walter Benjamin publicou o seu texto “A
obra de arte na época de sua reproduti-bilidade técnica”[1] ele procurou
avaliar os efeitos da produção, do consumo de massa e da repro-dução técnica
sobre as obras de arte. Esse texto
foi um marco nas discussões sobre a própria Indústria Cultural e sua relação com
a sociedade de massa. Colocado como
um crítico às idéias dos pensadores da Teoria Crítica, principalmente por seu
otimismo frente aos processos de reprodução em massa, Benjamin acabou abrindo
espaço para outras discussões referentes ao uso e efeitos que os processos de
reprodução produzem nas obras de arte e, também, para a arte popular e
industrial. Segundo Dominic
Strinati[2], “Ele (Benjamin) afirma que a obra de arte, devido a sua
original imersão em rituais e cerimônias religiosas, adquire uma espécie de
“aura”, que atesta sua autoridade e imparidade, sua singularidade no tempo e espaço. Desde que estabeleceu no centro das
práticas religiosas, que legitimaram culturalmente e integraram socialmente a ordem
predominante, a obra de arte adquiriu, com essa função ritual, a aura associada
à religião.” [3] Essa
concepção de criação e desenvolvimento de uma “aura religiosa” para a obra de
arte é, para Benjamin, o principal ponto de encontro da massa com a própria obra
de arte, agora transformada em objetos reproduzidos em série, distribuídos pelos
meios difusores e de comunicação. O
próprio Benjamin confirma tal colocação quando comenta, como exemplo, a
fotografia: “(...) a obra de arte se
emancipa, pela primeira vez na história, de sua existência parasitária,
destacando-se do ritual. A obra de
arte reproduzida é cada vez mais a reprodução de uma obra de arte criada para
ser reproduzida. A chapa
fotográfica, por exemplo, permite uma grande variedade de cópias; a questão da
autenticidade das cópias não tem nenhum sentido.” [4] Dessa
maneira, W. Benjamin, parecendo contradizer as idéias dos “pais” da Teoria
Crítica quanto à Indústria Cultural, não apenas atesta o caráter positivo de “destruidor de auras” que as técnicas de
reprodução possuem, mas abre um novo caminho para a discussão sobre o próprio
conceito sobre a obra de arte. Não
entra em discussão o caráter “único” da obra de arte original, mas apenas o
fluxo sagrado de sua observação e
interpretação em sua reprodução, na qual a “aura” não mais existe. No entanto, essa “aura” só existe porque
lhe é dada (à obra de arte) autenticidade de sagrado; de esfera “única” dentro
de determinados paradigmas
culturais. Se, por um
lado, aprendemos (ou fomos obrigados a reconhecer) como cultura (ou alta cultura) obras de
Picasso ou de Philip Grass, poderemos, agora, talvez reconhecer outras formas de
arte e cultura, tais como os livros antigos, selos e até papéis de carta,
miniaturas de Kinder Ovo, figurinhas ou revistas de histórias em quadrinhos,
desde que possuam alguma força “aurítica” que comprove sua
magnitude. Edgar
Morin[5], que já procurou
discutir as diferenças entre a alta
cultura e cultura de massa por
meio do reconhecimento (ou detecção) da chamada Terceira Cultura (ou Mass
Cultu-re), levantou a problemática da Neurose[6] que norteia,
segundo ele, todo o comportamento do consumidor em nosso século. A constituição da cultura de massa
enquanto cultura é seu ponto
principal. Como o próprio Morin
definiu: “...uma cultura constitui um corpo complexo
de normas, símbolos, mitos e imagens que penetram o indivíduo em sua intimidade,
estruturam os instintos, orientam as emoções. Esta penetração se efetua segundo trocas
mentais de projeção e de identificação polarizadas nos símbolos, mitos e imagens
da cultura como nas personalidades míticas ou reais que encarnam os valores”
[7]. Partindo do
que significa cultura para Morin e de
uma nova concepção de objetos de valores diversos, selecionados ora segundo um
profundo mas difuso mercado de trocas, ora por uma mitificação e “aurificação”
simbólica desses objetos advinda de grupos sociais que procu-ram criar e
desenvolver sua própria “cultura”, reconhecendo nela um novo sentido, ou seja,
uma nova regra de projeção mítica/simbólica, surge, aí, um novo processo de
significação cultural. Abraham
Moles e Eberhard Wahl[8], a partir de
comentários sobre a função semiológica do objeto kitsch na sociedade, propõem uma
aproximação desse objeto com a obra de arte, ou com uma espécie de “aura
sacralizada e mitificada” desse elemento pela sociedade de
massa: “(...) na sociedade do
kitsch existe todo um inferno de objeto “único”(ou
de difusão restrita), em sua inutilidade ou excentricidade, todo um inferno do
objeto de luxo, que, no fundo, sonha com o Faubourg Sant-Honoré. Ou seja, sua originalidade forçada
deve-se interpretar como um desafio de classes intelectuais marginais às esferas
“legítimas” dos privilegiados da sociedade industrial.” [9]
No caso dos objetos “desviados”, os comentários de Moles e Wahl
referem-se aos desvios que certos objetos sofrem de suas “funções primárias”[10], ou seja, por
meio da crítica ao funcionalismo social dos objetos, o elemento kitsch subverte os valores “impostos”
pela própria função primordial do objeto, transformando-o, agora, em “objeto
único”. Isso pode significar, antes
de um desvio, uma nova proposta de valor, uma nova criação de
“aura”:
“Os objetos desviados
agradam por sua provocação, sua não legitimidade, reivin-dicando, mesmo que por
desafio, em sua ilegitimidade, um valor absoluto. Desafio aos modelos absolutos, são
também um desafio aos objetos de série: querem-se absolutos em sua
singularidade, conjuntura exata intelectual “fora de série”. [11]
Ora, o mesmo processo de criação de “auras” nas obras de arte discutido
por Benjamin (assim como o processo de sua “destruição”) se encontra no texto de
Moles e Wahl. É claro que estes
dois tratam do kitsch
como “(...) uma secreção
artística devida à venda de produtos em uma sociedade burguesa, de que as lojas
se tornam com as gares, os verdadeiros templos”[12]. Mas também
foram tratados assim os primeiros objetos artísticos, as primeiras obras de
arte, ou até com a arte contemporânea, onde o ambiente de exposição nada diferiu
ou difere das lojas de departamentos nas quais os objetos de arte são totalmente
descartáveis. E esses “tem-plos”, tal qual o modo religioso e
“aurático” proposto por Benjamin quanto às obras de arte, seriam apenas os
lugares “sagrados” para a divulgação (e distribuição) desses produtos kitsch. No atual
momento, chamado por alguns de pós-modernidade, as discussões sobre os
pro-cessos “auráticos” alcançam discursos interessantes, subvertendo (senão
invertendo) as concep-ções anteriores de Benjamin. Por exemplo, segundo F. Jameson[13], essa chamada
pós-moder-nidade “(...) têm revelado um
enorme fascínio justamente por essa paisagem “degradada” do brega e do kitsch,
dos seriados de TV e da cultura do Reader’s Digest, dos anún-cios e dos motéis,
dos Late Shows e dos filmes B hollywoodianos, da assim chamada paraliteratura -
com seus bolsilivros de aeroporto e suas subcategorias do roma-nesco e do
gótico, da biografia popular, histórias de mistério e assassinatos, ficção
científica e romances de fantasia: todos esses materiais não são mais apenas
“cita-dos”, como poderia fazer um Joyce ou um Mahler, mas são incorporados à sua
própria substância” [14].
Na chamada pós-modernidade, os objetos com proposição “aurítica” são tão
ovacionados quanto as obras de arte da alta cultura. Estes objetos, quer sejam chamados de kitsch ou não, já possuem até locais
onde são classificados e organizados de forma a constituírem coleções
completas. São as coleções
caseiras, ou como colocariam Adorno e Horkheimer[15], coleções
bur-guesas. As “auras” das Coleções
Caseiras Colecionar
algum objeto, sejam obras de arte, selos, automóveis antigos ou, até então times
de futebol de botão, lembranças de festas, álbuns de figurinhas, papéis de carta
ou qualquer outro objeto banal é, com certeza, uma prática antiga e ainda muito
comum entre as pessoas de diversas faixas etárias[16]. Desde o início de sua convivência
social, o homem vem demonstrando um desejo cada vez maior pelo colecionismo,
prática muito em voga em séculos anteriores à Revolução Industrial, porém
desenvolvido até as últimas conseqüências pela Indústria Cultural,
particularmente no Século XX. É conhecido
que em séculos anteriores, mais precisamente a partir dos Séculos XV e XVI,
quando as obras de arte começaram a ser reconhecidas e desenvolvidas pelos
renascen-tistas, houve muitos nobres que iniciaram coleções particulares por
causa do “frisson” da época em relação às obras de certos artistas e seus novos
conceitos estéticos. Porém,
no Século XX, o espírito de mecenato (o qual desapareceu por completo já no fim
da Segunda Guerra Mundial) é deixado de lado e é substituído por um novo
espírito, mais ligado à novos valores estéticos, psi-cológicos e, porquê não
dizer, “auríticos” e míticos desses objetos. Nesse caso,
os colecionadores de objetos advindos da Indústria Cultural são um ótimo objeto
de estudo, pois temos o surgimento de uma enormidade de mitos, símbolos e
valores criados para sustentar tanto esse mercado como o grupo que dele surgiu
e/ou dele fez surgir. Partindo do
ponto proposto por Morin, uma sociedade que valoriza também personagens de
revistas em quadrinhos, times de futebol de botão, papéis de carta, cartazes de
cinema e filmes em vídeo, não estaria contradizendo suas normas culturais, mas
apenas enfatizando essas novas regras que surgem com novos
esboços. Esse
chamado capitalismo tardio[17], do qual
Jameson tratou como uma nova regra até mesmo para a produção estética,
colocando-o como pano de fundo de uma
nova concepção de arte, também faz surgir para um número de pessoas hobbies ou passatempos, conscientes ou
inconscientes, que tem por pressuposto manter viva essa esfera cultural, ou
seja, a criação de um processo de manutenção da história da cultura de
massa. Nesse caso, o papel do colecionador dessas “bugigangas” se
presta, agora, para a criação de “auras” e para a manutenção de sua própria
cultura ou valores simbólicos, imagéticos ou míticos, surgidos neste
momento. Nada tão
diferente dos colecionadores de objetos de culturas indígenas, por exemplo, que
detém um alto teor antropológico e histórico de tribos de outros
continentes. Objetos indígenas,
tais como carrancas simbólicas ou vasos adornados com imagens míticas, cujos
valores estéticos existem apenas porquê tornaram-se referência do modo de pensar
de uma determinada sociedade. No
entanto, para os novos colecionadores (aqueles que guardam até mesmo miniaturas
de Kinder Ovo) talvez ainda não
esteja tão clara a finalidade de sua coleção, servindo muitas vezes apenas como
objetos de projeção simbólica pessoal, prestes à criação de sua
significação. Segundo
Gino Giacomini Filho[18], que procurou
entender, por meio de várias teorias, qual a relação mercadológica no
colecionismo, “a promoção de coleções
encontra eco perante às pessoas que buscam nesse hobby algo que complete sua
rotina ou estilo de vida...”, enfatizando ainda que, para as pessoas, as
coleções possuem “a finalidade de atender
à necessidades psicossociais” [19]. Utilizando-se de dois modelos teóricos,
Giacomini aponta para os aspectos simbólicos como motivação para a aquisição de
objetos: “No Modelo Psicanalítico, as necessidades do homem operam em vários níveis de consciência que não são observadas a priori, pois são internas. A implicação mais importante de marketing nesse modelo é de que os compradores são motivados tanto por aspectos simbólicos como funcionais do produto” [20]. E o “... Modelo Sociológico
(...) considera importante a figura do heavy user, grupos que concentram maior intensidade de
uso/consumo de certos produtos, podendo representar contingentes de
colecionadores ‘fanáticos’ e que formam acervos de grande dimensão” [21]. No entanto,
o próprio Giacomini afirma que os vários conceitos sobre o colecionismo,
advindos dos vários modelos teóricos, apresentam amplitudes
diversas... “... passando de teores
leves e informais, como considerá-lo um tipo de entrete-nimento e passatempo
descompromissado, até sentido pesado, identificando-o como obsessão ou
neurose”[22]. Além disso,
ele próprio nos mostra como o marketing e a publicidade se utilizam “desse desejo natural” para ampliar a
aquisição por meio de atos colecionistas.
Por meio da apresentação de vários cases de marketing com o uso de “objetos colecionáveis”, Giacomini
aponta que “Havia (nos anúncios) sempre uma mistura de realidade e ficção;
ou seja, uma atmosfera lúdica, compatível com a necessidade de captar a atenção
e o interesse da garotada.
Constatou-se, também, o direcionamento da narrativa em construir uma
história, com começo, meio e fim” [23]. O processo
de aquisição de objetos para fins colecionistas nos parece, também, muito
relacionado com processos de criação de narrativas sobre o material
colecionável. Da mesma maneira que
as obras de arte possuem uma “história” que atestam sua criação e sua
própria existência, os objetos da Indústria Cultural também necessitam possuir
uma narrativa que lhes confira um “corpo”, uma “alma” e uma
“aura”. Isso
parece, novamente, subverter o quadro de Benjamin sobre as obras de arte. Enquanto que os processos de reprodução
em série de uma obra de arte “única” lhe “destrói” a “aura”, aproximando-as da
massa; para os novos colecionadores essas próprias reproduções lhes confe-rem
determinado poder para desenvolverem processos “auríticos” para seus objetos
colecioná-veis, tratando-os como verdadeiras e legítimas, mas distantes obras-primas da Indústria Cultural,
destinando-lhes até mesmo “lugares
sagrados”, tal como as próprias obras de arte. Revistas em Quadrinhos e
seus colecionadores Algumas das
categorias de coleção, muito em voga atualmente entre jovens, adoles-centes e
até adultos são as de revistas de H.Q., ou gibis, na linguagem mais vulgar. As histórias, personagens e estruturas
desse meio de comunicação de massa alcançaram, a
partir da década de oitenta nos Estados Unidos um status mais arrojado, mais próximo de
uma concepção de Arte. É sabido que
na Europa (particularmente na França, Itália, Espanha e Portugal) algumas
histórias em quadrinhos já possuiam altos teores artísticos desde a década de
sessenta. Só para citar algumas
delas tais como Corto Maltese, do
italiano Hugo Pratt; Valentina, do
também italiano Guido Crepax; A Saga de
Xam, de Nicolas Devil; Barbarella, do francês Jean-Claude
Forest, entre muitas outras, que por meio de temas mais adultos chegaram
próximas ao experimentalismo dentro da linguagem dos quadrinhos, ampliando as
discussões semiológicas sobre a sua utilização. Nos Estados Unidos, também nessa época,
surgiram os quadrinhos undergrounds,
com Robert Crumb à frente do movimento. É claro que essa concepção de Arte para
as H.Q.s ainda está dividida entre a definição de quadrinhos enquanto obra
estética, com conceitos e conteúdos estéticos e um simples produto de mercado,
esse último, então, "mascarado" pela indústria norte-americana por meio da
deformação desses próprios objetos (mitificação). Ainda não
podemos, também, julgar apenas baseados na proposta de um mercado
prestidigitador, que promove uma semiurgia[24] nas formas
desse meio de comunicação. Há, pelo
menos, três décadas que vários estudiosos, entre eles estetas, lingüístas,
semiólogos e semio-ticistas[25], promovem uma tour de force para apontar as qualidades
estéticas das H.Q.s por meio de estudos de suas
estruturas. No Brasil,
assim como em outros países, desde a década de sessenta, já existem diversas
publicações que desenvolvem teses em diversas áreas que tratam do fenômeno das
histórias em quadrinhos. Na França,
Itália e Estados Unidos particularmente, vários autores desenvolveram estudos
sobre a importância dos quadrinhos na sociedade atual. No entanto, poucos deles apresentaram
estudos baseados no desenvolvimento mítico e mercadológico (como se agora
pudéssemos dissociá-los) desse objeto.
O ensaista e semioticista Umberto Eco foi um dos que procurou
desmitificar o fenômeno. Em seu
texto O Mito do Superman[26], Eco
desenvolve estudo baseado na sua própria concepção que faz dos meios de
comunicação de massa, os quais ele divide entre apocalípticos e integrados. No entanto, ele toca muito pouco na
questão do desenvolvimento do mercado, particularmente, do mercado dos
colecionadores de revistas em quadrinhos, foco deste capítulo. Outros autores acabam partindo apenas
para argüições teóricas sobre estética, lingüística e semiologia. Nada de desmitificador tem surgido nessa
área (fora alguns textos críticos com bons argumentos baseados em teorias
psicológicas, psicanalíticas e mercadológicas). Sob as
bandeiras da Globalização e da pós-modernidade muita coisa está mudando no
mercado das H.Q.s. As grandes
editoras norte-americanas começam a sentir essa mudança, na qual até as maiores
delas sentiram de perto o fim. Com
esse novo desenvolvimento do mercado está sendo preciso também mudar as
estratégias para ampliar a atuação dessas editoras. Nesse caso a estratégia, que não é tão
nova como já se sabe, é a de criar e desenvolver novos mitos, agora mais
avançados e estruturalmente mais complexos. Uma Tríade
Mítica Já podemos
considerar personagens de Histórias em Quadrinhos, como Super-Homem, Homem
Aranha, Tintin, Mickey e outros, mitos modernos oriundos dos gibis. As estruturas de suas histórias
justificam esse processo mitificador: heróis ou super-heróis que nascem em
outros planetas e que desenvolvem super-poderes em nosso planeta para salvá-lo;
ou que por um desejo de vingança iniciam uma escalada de redenção e salvação
entre os simples mortais, enfim, uma série de narrativas semelhantes às dos
grandes heróis clássicos, reais ou ficcionais. Esse processo mitificador já é bem
conhecido desde os grande heróis gregos, mas desenvolvido às últimas
conseqüências pela literatura folhetinesca do Séc. XIX[27], pelo cinema,
pelas histórias em quadrinhos, enfim, pela cultura industrial de
massa. No caso das
H.Q.s que, como já foi descrito, encontra-se em crise de mercado, o mo-mento
urge de se reciclar, criar e até desenvolver novos mitos. Mas parece que o mercado, além de
acordar para o esgotamento dos velhos mitos, também reconhece o esgotamento dos
proces-sos de mitificação, muito mais mortais para a indústria do que o
reconhecimento do fim dos mitos de massa.
Não que haja um reconhecimento dos objetos deformados em mitos, como num
momento de consciência da massa em relação ao processo, mas apenas um
esvaziamento (como se já não fosse vazio) desse sentido
mítico. Para a
indústria norte-americana de revistas em quadrinhos seria morte certa se não
fossem criados novos processos dentro e a partir dos mitos originalmente
criados. Um dos exemplos já
clássicos desse processo surge na década de oitenta com a criação dos chamados
“quadrinhos de autor”. Nessa época,
particularmente em 1987, surge Batman, O
Cavaleiro das Trevas, de Frank Miller[28], um quadrinhista
até então maldito entre seus pares.
Com essa obra, Miller, a DC Comics (editora detentora dos direitos da
personagem e da história) e, principal-mente, o próprio mercado de H.Q.s no
mundo sofrem uma grande mudança, chamada mais tarde de uma nova Era de Ouro dos quadrinhos
norte-americano (esse termo se dá por causa da relação oferta/procura de gibis no mercado - termo explicitamente
mercantilista e capitalista). Uma nova
concepção de quadrinhos nasce no mercado norte-americano, então, com temas já
muito utilizados pelos autores europeus desde os anos 60, tais como crises de
cons-ciência, crises sociais, etc., mas ainda com muito toque mitificador,
afastando os problemas reais de seus leitores. As histórias dos quadrinhos
norte-americanos dessa época não eram mais baseadas apenas em seus personagens,
mas sim em mais dois outros termos: seus autores (desenhistas, escritores,
coloristas, capistas, etc) e no próprio veículo, ou seja, a própria revista de
histórias em quadrinhos enquanto produto.
Para os colecionadores, particularmente, se determinava a partir do
desenvolvimento desses novos mitos
uma época de glória, com a total valorização do objeto. Nesse instante é desenvolvida uma tríade
mítica no mercado das H.Q.s: 1) as personagens ainda
enquanto mitos modernos, porém fluidos, voláteis, dependentes de sua história
narrativa ficcional e da aceitação de um público que, segundo Morin, já num
estado de neurose de massa, que mesmo compartimentada
em segmentos de mercado determina como objetos de rituais do
entretenimento; 2) os autores “da moda”,
sejam escritores, desenhistas, capistas, etc, que tornaram-se parte desse
mercado agora como objetos de adoração mítica. Uma personagem, por exemplo, acaba sendo
valorizada por ter sido desenhada ou escrita por um determinado artista, cujo
“passe” aumenta de valor a cada crescida no mercado. Revistas especializadas no mercado de comic books, tais como a Wizard[29]
norte-americana chegam a contribuir com o avanço do mito do artista de H.Q.s
destinando páginas e mais páginas com entrevistas, biografias e até fofocas do
meio, 3) e, por fim, as próprias
revistas de H.Q.s (gibis ou Comic Books) que a partir da década de
oitenta, junto com a valorização dos outros dois elementos da tríade, ganharam
“vida nova” na qual a valorização do objeto, seja por causa dos seus artistas,
dos seus personagens, ou até mesmo por causa da “antiguidade” da revista de
H.Q[30] torna-se o
elemento mítico por excelência. Os
colecionadores e o mercado, nesse caso, transformam esse objeto banal em um
proveitoso e, porque não dizer, rentável “negócio”, no qual são negociadas edições raras, já
desaparecidas até mesmo dos catálogos das editoras. Para este
último caso, o qual sabemos que não é por sí só um fato surgido apenas na década
de oitenta, mas que, por causa da modernização da indústria gráfica, que
contribuiu para o aumento das tiragens, foram criadas várias estratégias de
comunicação e marketing que super valorizam as próprias revistas de H.Q.s. Entre as várias estratégias está a
confecção de vários primeiros números de uma mesma publicação, com tiragens
limitadas (o que garante maior procura), além de publicações especiais, juntando
personagens e autores “da moda”. Também a novelização das histórias, ou seja, o
caráter folhetinesco[31] o qual promove a
divisão das histórias em capítulos, muitas com duração de quase um ano, pode
desenvolver no colecionador novos desejos e, é claro, compelindo-o a sua
compra. Enfim, são várias as formas
de fazer com que se crie o desejo de colecionar, até mesmo com a produção de
outros objetos, tais como card-games (baralhos que são colecionáveis como se
fossem figurinhas); miniaturas de bonecos das personagens; produção de filmes
para o cinema e seriados para a televisão, poste-riormente também com outros
produtos de mershandising, etc. O
termo “colecionável” também é um dos mais usados nesses casos. “Colecionar” algum título ou alguns
títulos garante para as editoras uma procura bem maior. A questão que surge agora é: o que
realmente desejam os colecionadores de gibis? Sabemos que essas revistas são
mercadorias (e baratas, até certo ponto), no entanto a super valorização de
determinados números ou títulos de revistas de H.Q.s promove uma transformação
no mercado. Voltando às
discussões do início deste texto desenvolvidas por Morin sobre “alta cultura” e
“mass culture”, esses novos símbolos, mitos e imagens não constituiriam, então,
uma nova cultura dentro da
sociedade? Partindo do Modelo
Sociológico, a partir do pressuposto de uma sociedade capitalista, a qual sugere
reproduções[32] dessas forças de
consumo como se fossem forças simbólicas, mesmo que diferenciadas ou
segmentadas, esses “valores” serão justificados sob a forma de símbolos
“tribais”[33] os quais,
doravante, se transformarão em elementos culturais, sugerindo unidade de grupo, o
que não passará de uma “unidade
ideológica estrutural” [34]. O vínculo
dos colecionadores com seus objetos de desejo (relação especular) poderia criar
certa neurose[35] frente à
realidade apresentada. Assim, a
sugestão de uma nova realidade
contribui com, não apenas, a geração de certo conformismo, mas também com um
objeto de fuga dos problemas apresentados pela
realidade. Minha
sugestão é que, particularmente, os colecionadores de revistas de H.Qs são um
dos grupos que encontram-se num processo muito parecido com neurose. Isso se dá, princi-palmente, por causa
das características míticas básicas das H.Qs, ou seja, por causa dos universos[36] míticos
“naturalmente” criados por essas H.Qs e, porquê não, seu próprio mer-cado. O universo das personagens, o universo dos artistas e o universo das próprias revistas (tríade mítica) poderão ser cortejados pelos colecionadores como
elementos de uma estética e cultura própria de sua tribo e ou grupo social. Ora, ideologicamente nada disso é
justificado, a não ser por uma ideologia que esteja fora desses universos, tal como a ideologia da
publicidade e do marketing, manipulando, tal como deuses gregos, os “destinos”
daqueles que encontram-se nos três ambientes; dentro de um quarto
universo/ambiente mais próximo da realidade, ou seja, o ambiente
mercadológico. Desenvolvendo Mitos
Colecionistas Em
“Mitologias”, particularmente no capítulo O Mito, Hoje[37], R. Barthes
tenta nos responder o que seria um mito na sociedade atual. O autor nos deixa claro que não procurou
dar ou desenvolver um significado para a palavra Mito, mas sim, definir coisas e não palavras[38]. Para ele, o mito é uma fala e não uma fala qualquer, mas sim um
sistema de comunicação, uma
mensagem. Partindo dessa
proposta, Barthes desenvolve toda uma tese baseada no sistema semiológico
saussuriano[39] (de Ferdinand de
Saussure) na qual a origem é a lingüística e o dis-curso. A base da estrutura dessa lingüística é
o signo, o qual, por sua vez é parte e resultado de uma relação triádica entre
Significante (forma) e Significado (conteúdo). Para Barthes, o mito se forma por meio
do significante, ou seja, pela forma do objeto, a qual, por sua vez, apresenta
um novo conteúdo e um novo signo que não os originais. Isso só pode acontecer por meio de um
discurso formalizador e mitificador. Ora, dessa
maneira, nos parece que a proposta de qualquer colecionador, quer seja de obras
clássicas de arte, quer seja de objetos ínfimos, banais, tais como papéis de
carta ou times de Futebol de Botão, não passa de mitificação que sofre o mesmo
processo lingüístico (ou de discurso) proposto por Barthes. Nesses casos, os conteúdos originais são
esquecidos e agora a forma, já mítica, rege a nova estrutura sígnica, ou seja,
de representação e significação desses objetos. As Histórias em Quadrinhos e as Revistas em QuadrinhosDuas
diferenças básicas devem ser expostas: a primeira é a definição de
História-em-Quadrinhos (H.Q.), ou como foi chamada nos EUA, “Comics”, dado o seu
caráter inicialmente cômico, e a outra é a de “Comic Books”, ou sejam, as
Revistas em Quadrinhos. A primeira
se baseia, basicamente, na linguagem criada pela H.Q., a qual está vinculada à
forma de leitura e códigos apresentados; a segunda no meio de comunicação que
veicula esse conteúdo. Suas
orígens podem ser colocadas nas próprias inscrições e desenhos nas cavernas dos
homens pré-históricos, passando pelos hieróglifos egípcios, pelas Iluminuras e
vitrais medievais até aos livros ilustrados do Séc.
XIX. No entanto,
o ano de nascimento das H.Q.s, por convenção, foi estipulado pelos
norte-americanos em 1894, quando do surgimento de “Yellow Kid”, personagem
criado por Richard Felton Outcault para o jornal New York World. Esta personagem acabou transformando-se
numa das principais atrações do periódico e um dos primeiros materiais
quadrinhísticos a ser utilizado como estratégia diferencial de concorrência das
empresas jornalísticas. A partir
daí o desenvolvimento das H.Q.s no meio gráfico e comercial foi enorme. Porém, até a década de 30, as H.Q.s
ficaram presas ao meio jornalístico, já como um subproduto dessa
indústria. Em 1933,
por uma estratégia da empresa Procter & Gambler, Max C. Gaines projetou a
primeira revista de H.Q. do mundo.
Em formato 8" X 11", impressa em cores, a revista era distribuída
gratuitamente entre as pessoas que enviavam cupons recortados das embalagens dos
produtos alimentícios da P & G.
Os primeiros dez mil exemplares da revista Funnies on Parade, como foi chamada,
esgotaram-se rapidamente iniciando uma nova “era” na história das H.Q.s,
inicialmente vinculados a grandes patrocinadores como Milk-O-Malt, Canada Dry,
Kinney Shoes e outros durante toda a década. Nascem, assim, os “Comic Books”, ou
sejam, os “Gibis”, as revistas de H.Q.s, que nas décadas seguintes tornaram-se
um forte Meio de Comunicação de Massa (MCM), já quase totalmente desvinculado
dos jornais. Mercado
Norte-Americano Quando
estudamos produtos industrializados não podemos, é claro, deixar de falar dos
Estados Unidos da América, um país que determinou como seu principal instrumento
de manutenção de poder de mercado a propaganda e diversas estratégias de
marketing criadas para isso. “Donos” da
criação dos “Comic Books”, os EUA são, ainda hoje, um dos maiores consumidores
de revistas em quadrinhos do mundo.
Segundo a revista Wizard
norte-americana, especializada no mercado de H.Q.s, já são cerca de 150 títulos
publicados pelas quatro principais editoras: Marvel Comics, DC Comics, Dark
Horse e Image Comics, sendo que algumas dessas edições já chegaram a
ultrapassar, em vendas, a casa dos 10 milhões de cópias, somente no mercado
interno. Verificam-se, contudo,
várias estratégias utilizadas para atingir um mercado de consumidores de “Comic
Books” muito diversificado. A
principal linha desse produto (revistas em quadrinhos) nos EUA é a de
super-heróis. Personagens que nas
décadas de 30, 40, 50 e 60 eram dirigidos para crianças e adolescentes (entre 9
e 17 anos), tais como Batman,
Super-Homem, Homem-Aranha, Capitão América e outros começaram a ser
reformulados já no final da década de 70 nos EUA, enquanto que na Europa e no
resto do Mundo a produção de Histórias em Quadrinhos alcança índices jamais
atingidos. As histórias passaram a
ter maior consistência, os desenhos e a produção gráfica conheceram um esmero
que justificou os “Comics” serem chamados de A 9a Arte no mundo
todo. Já nessa
época, a indústria norte-americana de “Comics” havia criado linhas de pro-dução
e constituído as profissões de desenhista, roteirista, arte-finalista, colorista
e até capista (especializados em desenhar e colorir as capas das revistas). Na década de 40, quando os EUA já haviam
conhecido um “Boom” dos “Comic Books”, foram registrados, em alguns casos,
números que alcançavam a casa dos 40 milhões de exemplares vendidos, que por
razões político-ideológicas (por força do macartismo, principalmente), esses
números foram reduzidos drasticamente entre 1950 e 1970. Com um pouco mais de liberdade e
descobrindo um novo mercado (os públicos jovem e adulto), já na década de 80,
nos EUA, começaram a surgir revistas com antigos personagens totalmente
reformulados. A
publicação de The Dark Knight Returns (Batman - O
Cavaleiro das Trevas), desenhado e roteirizado por Frank Miller em 1986 foi um
marco mercadológico. Totalmente
reformulado, o agora sessentão Homem-Morcego deu um novo impulso no mercado dos
“Comic Books”, inaugurando uma nova linha de produtos, baseada em Mini Séries e, depois, nos mais variados
subprodutos diferenciais, tais como Card-Games, bonecos em miniaturas das
personagens e o surgimento dos Comic
Books Stores, com os quais, em termos de logística, a distribuição, a
divulgação e a manutenção desses produtos transformaram-se num outro mercado
paralelo. Podemos
afirmar isso com base no que tem acontecido nos EUA, por exemplo, com uma das
maiores (senão a maior) editoras do setor: a Marvel Comics, já transformada em Marvel
Entertainment. Fugindo das
especulações de um suposto “mercado futuro” criado por estes “comic shops”, os
quais apostaram na super valorização que algumas revistas teriam entre os
colecionadores, e da concorrência direta de uma nova editora no mercado: a Image Comics, que conseguiu uma grande
parcela do mercado com desenhos e histórias de alto nível produzidas por
ex-artistas da própria Marvel, a editora adquiriu, em 1996, uma pequena
distribuidora para seus títulos. O fato causou grande desestabilidade no mercado
dos “Comic Shops”, dando início a uma crise que culminou com a concordata da
própria Marvel. Contudo,
durante o período áureo (1980-94) vimos o surgimento de um grande mercado, ou
mercados, dos “Comic Books”. Após
The Dark Knight Returns, a DC Comics
publica, em 1987, o que foi considerada a obra-prima dos quadrinhos: Watchmen, de Alan Moore e Dave
Gibbons, decidindo, assim, o mercado das Grafics Novels, ou “Novelas Gráficas”,
para o público adulto. Além disso,
em 1989, em comemoração aos seus cinqüenta anos, surge o primeiro filme de Batman, produzido e distribuído pela
Warner Bros., do grupo Time-Warner, atual proprietária da
DC. Brinquedos,
card-games, camisetas, fitas de vídeo, CD’s e mais “Comic Books” sobre o
personagem, então cinqüentão, deram novo impulso ao mercado. Estratégias para atingir mercados
internacionais fizeram com que por todo o planeta se comemorasse esse
aniversário. Outras editoras
seguiram pelo mesmo caminho criando diversos outros subprodutos. Outros filmes para o cinema baseados em
personagens dos quadrinhos, uns com relativo sucesso, outros nem sequer
alcançaram um décimo do resultado esperado. Outro dos
maiores exemplos de grandes estratégias de marketing para o aumento de vendas
foi realizada novamente pela editora norte-americana DC Comics para a linha de
revistas do Super-Homem em 1993.
Por meio de uma ampla divulgação na mídia, a revista Superman no 75 tornou-se o “Comic Book” mais
vendido da história dos quadrinhos, no qual foi publicada a morte do
Super-Homem. Foram mais de 10
milhões de cópias vendidas só no mês de seu lançamento (janeiro de
1993). Com essa
revista, a DC reagiu fortemente num mercado na qual estava prestes a se tornar a
terceira maior editora norte-americana, pois estava sendo ultrapassada, em
vendas, pela Image Comics. Além disso, a editora produziu seis
tiragens da edição, uma das quais para os colecionadores. Essa edição especial trazia, como
brindes, um pôster mostrando o funeral do Super-Homem, selos e até uma
braçadeira de luto, igual a que foi usada por muitos dos heróis da editora nas
cenas do enterro. Por quase um ano,
os leitores acompanharam a saga da morte, do luto e da ressurreição do
herói. Outros
personagens, tanto da própria DC, como da Marvel Comics, seguiram passos
semelhantes: Batman fica paralítico e é substituído por um maníaco e o
Homem-Aranha descobre que é apenas um clone dele mesmo (!?). Esse tipo de estratégia já havia sido
utili-zada pela própria DC no meio da década de 80, com uma história na qual
cruzou todos os seus personagens - Crise
nas Infinitas Terras. Essa saga
acabou com vários personagens clássicos da editora, como The Flash e Supergirl. Nessa mesma linha, a Marvel também criou
sua saga: As Guerras
Secretas. Com um
mercado superaquecido por essas estratégias de concorrência, os Comic Books Stores se tornaram o ponto
crucial para o negócio. Verdadeiros
centros de compra, troca e venda, esses “Shops” foram o centro real de logística
para esse mercado. A concor-rência
acirrada entre as editoras fez com que novos personagens surgissem não somente
nas revistas de H.Q., mas também já com seus subprodutos já acertados com
empresas de outros setores, como os de brinquedos e de vídeo, que também
passaram a ser distribuídos pelos “Shops”.
Dessa maneira, podemos dizer que a principal estratégia é a atual
diversificação de produtos baseados em personagens de sucesso no mundo dos
“Comic Books” e a distribuição desse material e a reformulação de
personagens. Mercado
Brasileiro Da mesma
forma que nos EUA, o Brasil conheceu os primeiros quadrinhos por meio dos
jornais. O primeiro foi O Malho, que em 1905 publicou a primeira
revista infantil de quadrinhos (ainda não era em formato de Comic Book): O Tico-Tico. A maior parte, para não dizer, quase a
totalidade do material impresso era “de fora”, ou melhor, dos EUA
particularmente. A concorrência
entre os jornais fez com que, entre as décadas de 20 e 30, jornais como a Gazeta e o Globo e a editora Brasil-América (Ebal), de Adolfo Aizen,
criassem suplementos com material adquirido por um competente sistema de
distribuição criado pelos norte-americanos: os Syndicates, nome dado às distribuidoras
de tiras e histórias em quadrinhos dos EUA, que detiam os direitos autorais de
diversos personagens. Por exemplo,
a King Features Syndicate, “proprietária” de vários personagens conhecidos, como
Flash Gordon, Jim das Selvas, Tarzan, etc. distribuía para jornais do mundo todo
as mesmas tiras de histórias já publicadas pelos jornais norte-americanos. Essa estratégia, ainda hoje, reduz em
mais de oitenta por cento o custo de uma história em quadrinhos, que necessita
de pelo menos uma equipe para sua produção. Por causa
disso, até o final da década de 30, os brasileiros conheceram poucos
perso-nagens estritamente nacionais.
Na década de 40 surgiram no Brasil as primeiras revistas de quadrinhos
nos moldes dos “Comic Books”, já com textos e desenhos de artistas
nacionais. As Edições Maravilhosas, da Ebal, foram um
marco desse período, nas quais eram quadrinizadas obras literárias brasileiras,
como O Guarani, de José de Alencar,
por exemplo. Entre as
décadas de 40 e 50 surgiram várias revistas baseadas em personagens do rádio e
do cinema nacional. Grande Otelo e
Oscarito, Mazzaropi e outros foram os títulos surgidos com o sucesso desses
artistas no cinema nacional. Em 1950
surge a primeira revista da hoje considerada a maior editora da América Latina:
O Pato Donald, da Editora Abril de
Victor Civita, que adquiriu os direitos de publicação de histórias com
personagens de Walt Disney. Com um
forte esquema de distri-buição e promoção, Civita transformou os já conhecidos
personagens Disney em grandes sucessos editoriais. Em
decorrência disso, a Ebal e outras editoras que nasceram e morreram nas décadas
de 50 e 60, também adquiriram direitos de personagens de outras editoras
norte-americanas. A Ebal publicou,
durante anos, os super-heróis da Marvel e da DC, perdendo seus direitos somente
nas décadas de 70 e 80 para a Bloch Editores, a Rio Gráfica Editora e, enfim,
para a Editora Abril, respectivamente. A principal
marca da Ebal eram as variedades dos seus títulos (quase 50 em 1960, o que já
era superior a maioria das outras editoras) e a distribuição em nível
nacional. Suas revistas, ainda
hoje, são itens indispensáveis entre os colecionadores, público cada vez maior
entre os brasileiros. Na década
de 80, a Ed. Abril, que já possuia vários títulos infantis, como Disney e
Maurício de Sousa (também dono de um dos maiores sucessos editoriais e
empresariais do país, império criado com a ajuda da concepção de diversos
subprodutos baseados nas personagens Mônica e Cia.), ampliou suas publicações,
relançando personagens da DC e da Marvel.
Além disso, acompanhando o sucesso norte-americano dos “Comic Books” e de
to-dos os diferenciais que nasciam na medida em que o mercado crescia, a Abril,
já transformada num grande conglomerado empresarial, criou a Abril Vídeo e
acrescentou em seus produtos desenhos animados. Assim como as personagens Disney, outras
surgiram nesse esteio como Homem-Aranha, Batman, etc., que surgiram nas TVs
norte-americanas e que agora já se encontram em vídeo home. Num mercado
de quadrinhos já globalizado, no qual vimos a repetição do sucesso de
personagens dos “Comic Books” norte-americanos pelo mundo, no Brasil algo
bastante similar também aconteceu.
Na década de 90 vimos, no eixo Rio-São Paulo, o nascimento e o
cres-cimento dos Comic Books Stores; o surgimento de exposições, mostras,
concursos, e até de diversos fã-clubes que apontaram o culto e o grande mercado
brasileiro ascendente. Isso foi
comprovado quando, em 1996, o Brasil foi considerado pela Marvel Comics o seu
segundo maior mercado no mundo. Já na
década de 80 outras editoras, como a Sampa Editorial, surgiram publicando e
distribuindo histórias com personagens nacionais e importados, aproveitando
sistemas de distribuição já montadas pelas grandes editoras, principalmente a
Abril Jovem. Distribuidoras como
Fernando Chinaglia e Dinap lotaram-se de vários títulos de muitas novas editoras
apontando, novamente, o sistema de distribuição como um dos principais
instrumentos de marketing editorial. O mercado
inflamou-se, também, quando começaram a surgir nas bancas de jornais uma
variedade de revistas especializadas em quadrinhos, que com o apoio das novas
tecnologias gráficas chegaram ao mercado como alternativas de difusão dos mais
variados produtos, que já abrange uma infinidade de setores
industriais. Assim,
vimos que, como nos EUA, o Brasil também já conhece um novo “Boom” dos
quadrinhos. Tanto que essa ampliação de mercado e o surgimento de novas editoras
com títulos próprios fez com que as duas maiores editoras, a Abril e a Editora
Globo (atualmente com 6 títulos no mercado) pressionassem as distribuidoras,
principalmente a Dinap, para que trabalhassem apenas com seus títulos e umas
poucas outras editoras já firmadas.
Esse tipo de “estratégia desesperada” aponta o quão esse mercado se
encontra sensível e aberto e o quanto é competitivo e ainda há para ser
explorado. Mercado
Abrangente Poderemos
dividir o mercado entre consumidores ocasionais, cujo consumo de revistas em
quadrinhos se dá por ocasiões muito específicas e que qualquer cálculo se
mostraria ineficiente; consumidores naturais, uma faixa que abrange uma grande
parte de crianças e adolescentes que compram o Gibi como material de lazer apenas, e os
aficcionados pelos quadrinhos, os quais encontraríamos entre os colecionadores,
mercado que se mostra cada vez maior a cada estratégia oferecida pelas
editoras. O Diretório dos
Colecionadores de H.Q., publicado por Jan Hendriks
e que já se encontra em sua 14a
edição, revelou pelo menos cerca de 680 colecionadores sérios em todo o
Brasil. Outros pesquisadores já
acreditam que esse número não alcance um décimo da realidade e que o número pode
ser bem maior do que o registrado.
Isso aponta um mercado estável e cada vez mais crescente, dado o aumento
dessas publicações. Esse
mercado de colecionadores de Revistas em Quadrinhos contribui com o
desenvol-vimento e com uma nova relação produto/preço. Outras revistas em quadrinhos não ficam
muito atrás: a primeira revista do primeiro grupo oficial da Marvel Comics - The Fantastic Four - lançada em 1961, já
chegou à US$ 16.000,00 (dezesseis mil dólares). No Brasil, algumas publicações, segundo
a Wizard brasileira - guia sobre quadrinhos da Editora Globo, como a revista Batman no.1, primeira série, publicada pela Ebal em 1954,
alcançou o valor máximo de R$ 3.000,00 (três mil reais), enquanto outras
caminham para o mesmo patamar, conforme a data de publicação e o estado de
conservação das mesmas. Por outro
lado, uma pesquisa realizada pela McCann-Erickson do Brasil em 1995, que apontou
comportamentos de crianças na faixa dos 8 aos 13 anos de idade, mostrou algumas
particularidades interessantes nas novas gerações. Por exemplo, o atual poder e a decisão
de compra entre crianças na faixa etária dos 10 e 13 anos aumentou
vertiginosamente em relação à geração anterior. Muitas das crianças pesquisadas ganham
“mesadas” ou algum dinheiro extra com trabalhos caseiros e gastam muito com
produtos para o seu lazer, principalmente vídeo-games e
“gibis”. Observando
alguns dos Comic Books Stores de São
Paulo, percebí a grande quantidade de crianças que, sozinhas, decidem suas
compras, principalmente por materiais de RPG (Roler Play Games), que muitas
vezes unem heróis dos quadrinhos em jogos de estratégia, o que já aproxima esse
público das H.Q.s. Essa pesquisa
ainda fornece a informação de que, com a permanência cada vez menor dos pais em
casa, e com a cultura dos Shopping Centers, onde esses pais podem deixar seus
filhos sozinhos sem algum perigo aparente, essas crianças acabam decidindo suas
compras, principalmente suas revistas em
quadrinhos. Orlando
Miranda, em seu livro Tio Patinhas e os
Mitos da Comunicação, publicado em 1976 levantou uma série de
pesquisas. Nelas foram apontados
alguns resultados: dos que lêem H.Q. 85,7% eram crianças de 9 a 12 anos; 80,0%
estavam entre adolescentes de 13 a 19 anos; 67,9% entre jovens de 19 a 30 anos,
e 36,1% entre adultos com mais de 30 anos. Como já foi
mostrado anteriormente, nos parece que esses números já estão bem defasados,
principalmente no que tange aos adultos, que a partir de 1980 constituíram-se
como mais uma parte do Mercado Potencial Disponível e que a cada estratégia
torna-se cada vez mais qualificado para esse setor. BIBLIOGRAFIA
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1984.. * Agnelo de Souza Fedel é
jornalista e professor universitário. Especia-lista em Teoria e Técnicas da
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Comunicação Social da FACFITO e coordenador de Publicações das Faculdades
Integradas São Paulo – FISP. [1] BENJAMIN, Walter. “A obra de arte na época de sua reprodutibilidade técnica”. in BENJAMIN, ADORNO HORKHEIMER E HABERMAS - Coleção Os Pensadores, São Paulo, Abril Cultural, 1980. [2] STRINATI, Dominic. Cultura Popular: uma introdução. São Paulo, Hedra, 1999. [3] STRINATI, Dominic. Obra citada (1999). [4] BENJAMIN, Walter. Obra citada (1980). [5] MORIN, Edgar. Cultura de Massas no Século XX - Vol.1 - Neurose. 8a ed., Rio de Janeiro, Forense-Universitária, 1990. [6] MORIN, Edgar. Obra citada (1990). [7] MORIN, Edgar. Obra citada (1990). [8] MOLES, A. e WAHL, E. Kitch e Objeto. In Semiologia dos Objetos. MOLES, Abraham e outros, Petrópolis, Vozes, 1972. [9] MOLES, A. e WAHL, E. Obra citada (1972). [10] Definidas pelos funcionalistas como as funções principais dos objetos, ou seja, de seu uso primário. [11] MOLES, A. e WAHL, E. Obra citada (1972). [12] Idem.(1972). [13] JAMESON, F. Pós-Moderno. São Paulo, Ática, 1996. [14] Idem (1996). [15] ADORNO, T. e HORKHEIMER, M. A Indústria Cultural. In Teoria da Cultura de Massa, LIMA, Luiz C. (org.). Rio de Janeiro, Paz e Terra, 1980. [16] Comentado pelo prof. Gino Giacomini Fo em seu texto “Colecionismo na comunicação mercadológica”, in Comunicação, Marketing Cultura - Sentidos da administração, do trabalho e do consumo, CORRÊA, Tupã Gomes e FREITAS, Sidinéia Gomes (orgs.), São Paulo, Centro Lusitano de Cultura, 1999. [17] JAMESON, F. Obra citada. (1996). [18] GIACOMINI Fo, Gino. Obra citada (1999). [19] Idem. (1999). [20] Ibidem. (1999). [21] GIACOMINI Fo, Gino. Obra citada (1999). [22] Idem. (1999). [23] Ibidem. (1999). [24] BAUDRILLARD, Jean. (Semiurgia = neologismo que une os sentidos das palavras signo e cirurgia) in A Transparência do Mal - Ensaio sobre os fenômenos extremos. 2a ed., São Paulo, Papirus, 1992. [25] Para citar alguns: Umberto Eco (Itália), Claude Moliterni (França), Scott McCloud (EUA), Álvaro de Moya, Moacy Cirne, Flávio A. Calazans e Antônio Luis Cagnin (Brasil). [26] ECO, Umberto. Apocalípticos e Integrados. 4a ed., São Paulo, Perspectiva, 1991. [27] ECO, Umberto. O Super-Homem de Massa. São Paulo, Perspectiva, 1991. [28] Essa publicação inaugura nos EUA uma nova série de revistas em quadrinhos, agora sob o título de Grafic Novels, destinada ao público adulto, mais selecionado. O termo Grafic Novel foi criado pelo quadrinhista Will Eisner. [29] Revista norte-americana especializada em H.Qs. Muito usada pelos colecionadores norte-americanos por publicar tabelas de preços de revistas antigas e “fora de catálogo”. [30] O número 1 da revista norte-americana Action Comics, de 1938, na aparece pela primeira vez o Super-Homem, foi arrematada em leilão em 1987, nos EUA, por US$ 175 mil, provando que esse tipo de coleção também é um ótimo negócio. [31] ECO, Umberto. Obra citada (1991). [32] ALTHUSSER, L. Ideologia e aparelhos ideológicos de Estado. In Um mapa da Ideologia, S, Zizek (org.). Rio de Janeiro, Contraponto, 1996. [33] Referentes às Tribos Urbanas, ou sejam, grupos sociais urbanos com interesses comuns, os quais não se justificam por uma relação ideológica, mas apenas por uma “força de consumo” comum. [34] ALTHUSSER, L. Obra citada (1996). [35] Neurose: meio termo entre um distúrbio da mente e a realidade; concessão a que uma pessoa se acomoda, em troca de um fantasma, um mito ou um rito (MORIN, E. 1962) [36] Entendemos Universo como um ambiente de realidade própria, diferente da conhecida, no qual a relação com a nossa realidade é, ao mesmo tempo, muito próxima sob alguns aspectos estéticos, e longe, particularmente sob outros aspectos, tais como elementos morais, éticos e lingüísticos. [37] BARTHES, Roland. Mitologias. 4a ed., São Paulo, DIFEL, 1980. [38] Idem. (1980). [39] SAUSSURE, Ferdinand de. Curso de Lingüística Geral. São Paulo, Cultrix, 1989. |
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