Mais um texto do IPC premiado com 28 emails entre eles um bastante interessante de um colecionador de 75 anos que se achou o personagem citado e disse ter gostado.

Uma viagem filosófica ao colecionismo

 

O terceiro Milênio, a Internet, o avanço tecnológico e a globalização do mundo do homem trouxeram para o colecionismo um momento especial,  com reflexos diretos na Arte de Colecionar.

Anos de pesquisa de campo podem constatar que cada vez mais o homem coleciona, faz do colecionismo uma profissão além  do lazer e principalmente interage no seu dia a dia com os objetos que o cercam e que até então faziam parte do imaginário, ou algo intangível, a este avanço de forma humanística pode chamar de “interação humana”.

 O mais importante de toda esta jornada que hoje sabemos ser existencial é que graças aos deuses o homem agora reflete sobre esta Arte como uma ciência do século XXI. Nesta viagem filosófica podemos começar a entender a intrínseca existência do homem colecionador e os objetos que o cercam ou povoam agora o imaginário tangível e preservado de civilizações, como forma de transmitir cultura e tradições.

 Há quem diga que no colecionismo existe um toque do profano a ética ou a seriedade científica de regras definidas e modelos estipulado e convencionado permitindo apenas ao infantil o gesto de agrupar objetos em serie aos adultos ficou o legado da palavra “mania” e aos ricos e poderosos o direito a excentricidade.

 Tudo isto é passado hoje sabemos que colecionar é manter a história viva, é transmitir cultura, dividir afeto, é motivo de prosa, de lazer, de aproximação, de investimento, de terapia e muito mais. Respeitando o saber de grandes mestres que ignoram esta ciência, e pedindo permissão acadêmica aos doutores contemporâneos aos modelos de ciências atuais, me permito a viajar por um mundo de analogias filosóficas baseadas em 30 anos de convívio direto com o colecionismo em todos os seus aspectos e diariamente em pesquisa de campo, ou empírica.

 Como parâmetro discursivo sobre a “Arte de Colecionar”, alias um termo que sem modéstia uso nestes 30 anos, para definir este fenômeno que hoje convive em uma perfeita harmonia com inúmeras ciências e com a moderna visão global do século XXI, dando uma prova concreta das suas interfaces e da necessidade  de estancar o fogo das vaidades e irmos todos para uma união acadêmica para esta tendência cultural que si quer tem sua epistemologia. E ainda vê em textos como estes delírios de pouca erudição.

 Voltaire em seu Dicionário Filosófico no capitulo I, fala de uma história profana. “Não falo aqui senão da história profana pois quanto à dos judeus, nossos mestres e nossos inimigos em quem cremos e que detestamos”, e assim ele vai tendo uma visão pessoal e discursando ainda sobre o perigo de visões preconceituosas ou egocentristas como as que levam as interpretações bélicas e mortais em busca de poder e soberania.

Muitas são as perplexidades perante o ato de colecionar, o que sabemos é que este fenômeno sem uma postura acadêmica ou uma epistemologia formada, sem uma literatura ou reconhecimento cientifico se impõe como a tendência do “fast food” , ninguém gosta mas todos já experimentaram. Hoje já podemos arriscar a sugerir uma explicação talvez porque colecionar faz parte do dia a dia do homem de forma atemporal, e nascido com a consciência humana. 

Há também quem precise ver a alma para acreditar na sua existência, este fenômeno permitiria o conhecimento de ti mesmo. Alma chamamos ao que anima é tudo o que sabemos, assim como nada sabemos sobre este mistério que faz um sr. De 75 anos, realizado profissionalmente e abastado financeiramente sentar-se ao lado de um garoto de 10 anos para trocar figurinhas raras de um álbum? O lado adulto e poderoso deste colecionador incurável – ele existe e eu o conheço,  faz com que ele também freqüente com a mesma postura e ansiedade os mais requintados leilões em busca de um raro cristal ou de uma jóia, para as suas coleções variantes, onde apenas uma peça pode custar até centenas ou milhares de dólares. Este sr. Existe tem um nome, mas também ele representa uma massa humana anônima que só não é  um verdadeiro “clone de seus atos” porque diferem na conta bancária.

Estes senhores e estes jovens completam um ciclo emocional da palavra colecionar, onde a amizade que definida filosoficamente como: contato tácito entre duas pessoas sensíveis e virtuosas, no colecionador a virtude deste contato esta presente no respeito por aquele que possui a peça desejada, portanto um virtuoso que coleciona os objetos que povoam o nosso imaginário.  

O colecionador ainda é visto e julgado por aquilo que coleciona, um colecionador de obras raras é mais respeitado que um colecionador de tampinhas de garrafa, por exemplo, esta é uma visão materialista de quem não coleciona ou não sabe o valor dos objetos para um colecionador, que esta diretamente ligado  por exemplo a fatores culturais, como por exemplo a tampa do vidro do xarope que originou a Coca Cola em 1886 foi leiloada por 70 mil dólares e faz parte hoje da coleção de um feliz colecionador. O importante a ser visto é o legado cultural do colecionismo que hoje parece uma “Torre de Babel”, ainda como fruto das vaidades que erguem monumentos eretos, e esquecem do declínio da horizontalidade do saber que pode ser adquirido através de uma visão acadêmica da Arte de Colecionar.

 Bem supremo é um caminho perigoso de se analisar ao tratarmos do colecionismo porque, “cada um põe a felicidade onde pode e quanto pode”: Quid dem?Quid non dem? Renuis tu quod jubet alter... Castor gaudet equis: ovo prognatus codem pugnis... Sumo bem é o bem que vos deleita a ponto de polarizar-vos toda a sensibilidade, assim como o mal supremo é aquele que vos torna completamente insensível.

Estes são os dois pólos que os colecionadores conhecem bem e deles se deleitam, onde ainda segundo Voltaire “Não existem deleites extremos nem extremos tormentos capazes de durar a vida inteira”. Todo colecionador sabe a doçura de adquirir uma nova peça e angustia de procurar a próxima, e quem pode simplesmente julgar o colecionador com palavras como: volúpia, fortuna, mania, obsessão, poder, compulssividade, virtude, bem supremo ou outros adjetivos? Quando existe um desperdício científico na falta de uma visão acadêmica desta tendência cultural que custa atos Quixotescos a quem quer dar a epistemologia ao fenômeno da humanidade.

 Texto Renata Lima



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